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30/03/2026 às 06h48 Redação Você está aqui: Home / Crônica do Zezo Freittas Imprimir postagem

A cidade que esqueceu de si mesma

Na Rua Dr. Petrarca Sá, o lixo faz aniversário enquanto o poder público falta à própria festa

Tem lugar em Teresina onde o tempo não passa — apodrece.

Na Rua Dr. Petrarca Sá, no Parque Flamboyant, Grande Dirceu, há um monumento erguido não por arquitetos, mas pelo descaso. Um amontoado de entulho que já não é apenas lixo: é memória. Memória de uma visita da limpeza pública que veio, viu, largou e nunca mais voltou. Desde então, o monte cresceu, ganhou corpo, fez aniversário — um ano de existência firme e estável, coisa que muitos serviços públicos não conseguem sustentar.

Ali, o lixo não é só resto. É presença. Impõe-se sobre a calçada com cerca de um metro de altura, como se dissesse: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. E, de fato, ninguém tira. A rua, que deveria servir às pessoas, agora se curva ao entulho. Quase interditada, quase esquecida, quase inexistente.

O curioso é que o lixo tem mais constância que o poder público. Ele permanece. Ele resiste. Ele ocupa espaço. Já os responsáveis pela limpeza parecem ter adotado uma política inovadora: a ausência programada. Comparecem uma vez, deixam o problema pela metade e somem, talvez confiantes de que o tempo — esse funcionário invisível — resolverá tudo. Não resolve. Nunca resolveu.

Enquanto isso, os moradores assistem a esse espetáculo de abandono cotidiano. Não há fita de inauguração, mas há uma obra consolidada: o descuido institucionalizado. E o cheiro — ah, o cheiro — esse dispensa discurso. É a linguagem mais honesta da negligência.

Teresina, cidade quente por natureza, agora ferve também de indignação. Mas o calor da revolta não tem sido suficiente para derreter a frieza da gestão pública. O lixo segue lá, firme, celebrando seus doze meses de reinado absoluto sobre a calçada.

Talvez, em breve, ganhe placa comemorativa:
“Aqui jaz o compromisso público — soterrado sob entulho, esquecido pelo poder que deveria servir.”

E assim segue a cidade que esqueceu de si mesma, onde o lixo cria raízes e o cuidado nunca chega.

Zezo Freittas


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